27
Set 08

 

 
 
Aqui, Neera, longe
 
De homens e de cidades,
 
Por ninguém nos tolher
 
O passo, nem vedarem
 
A nossa vista as casas,
 
Podemos crer-nos livres.
 
Bem sei, é flava, que inda
 
Nos tolhe a vida o corpo,
 
E não temos a mão
 
Onde temos a alma;
 
Bem sei que mesmo aqui
 
Se nos gasta esta carne
 
Que os deuses concederam
 
Ao estado antes de Averno.
 
Mas aqui não nos prendem
 
Mais coisas do que a vida,
 
Mãos alheias não tomam
 
Do nosso braço, ou passos
 
Humanos se atravessam
 
Pelo nosso caminho.
 
Não nos sentimos presos
 
Senão com pensarmos nisso,
 
Por isso não pensemos
 
E deixemo-nos crer
 
Na inteira liberdade
 
Que é a ilusão que agora
 
Nos torna iguais dos deuses.
 
 
Ricardo Reis

 

Segue o teu destino
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
 
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.
 
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor das aras
Como ex-voto aos deuses.
 
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela não pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.
 
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
 
 
Ricardo Reis

 

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.
Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.
Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?
 
Ricardo Reis
 

 

Patrick Süskind
O Perfume – História de um assassino
Editorial presença
 

 

A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor!
Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.
 
 
Ricardo Reis
 

 

 
 
Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera Têm branco frio os campos.
À noite, que entra, não pertence, Lídia,
 
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos A nossa incerta vida.
À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
 
Não puxemos a voz Acima de um segredo,
E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve A negra ida do Sol) —
Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes Histórias, que nos falem
Das flores que na nossa infância ida
 
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.
E assim, Lídia, à lareira, como estando,
 
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos
 
Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos, E há só noite lá fora.
 
 
Ricardo Reis

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